A crença corrente no evangelicalismo é que Deus não pode nos dizer um “não”, que somos filhos Dele e temos que receber sim para tudo o que fazemos. Essa crença, além de absurda é anti-bíblica. A Bíblia nos dá inúmeros exemplos de pessoas que receberam um “não” de Deus, desde os piores homens, até aos mais amados por Ele.
O fato é que não conseguimos controlar Deus, como alguns de nós queremos. Deus é Soberano, e está no controle. Se estivermos dispostos a obedecer a Deus e seguir Sua vontade, nos sujeitarmos a Ele, provamos quão agradável é a Sua vontade pra nós. Mas se nos recusamos e formos rebeldes, por que não seríamos devorados pela espada? (Is 1.22)
Deus não nos deve nada, não tem obrigação nenhuma conosco, nem sequer precisava nos amar, porque não há nada de amável em nós. Mas Ele quis nos amar, quis ter uma necessidade (se é que eu posso aplicar esse termo) por nós, que O levou a dar Seu Filho pela humanidade. Quando não entendemos que o melhor já foi feito, nos contentamos com frases como “o melhor de Deus está por vir” ou coisas do tipo. Como disse Mark Driscoll em seu twitter: “Nós merecemos o Inferno. Tudo o que vier além disso é um presente”. O melhor de Deus é Cristo, e Cristo foi entregue por nós na cruz.
As pessoas se apegaram à teologia de que Deus é bom e rico e Seus filhos não podem sofrer. Frequentemente se ouvem frases como “se eu sou filho do dono do ouro e da prata, não posso viver na pobreza”. Essa teologia da positividade nada nos acrescenta. Não é só por eu decretar que amanhã eu vou ficar milionário que isso vai acontecer. Ouvem-se histórias de pessoas que foram abençoadas por Deus e ficaram ricas, outras que foram curadas miraculosamente. Mas existem também histórias de pessoas que amavam Jesus e morreram sem ter um carro, ou tiveram câncer, sofreram derrotas. Mas não vemos isso na mídia. Isso não dá audiência, não parece aumentar nossa fé. Mas deveria. A Bíblia está cheia de homens com problemas, gente que foi perseguida, humilhada, pobre, mas estava lá, sendo Igreja, aos pés dos apóstolos. Isso é o que devia nos fazer ficar mais fortes.
Essa positividade toda pode a princípio parecer boa, mas, na maioria dos casos, não é. Para quem consegue o que quer, recebe o que pediu, Deus é bom e fiel. Mas e quando não recebemos? Deus ainda é bom e fiel?
A verdade é que a confissão positiva não consegue nos explicar isso, não nos prepara para o Deus da Bíblia. E o Deus da Bíblia nem sempre diz sim.
Em 2 Samuel 7, vemos uma história interessante. Davi era um homem segundo o coração de Deus, segundo o próprio Deus diz: “Encontrei Davi […] homem segundo o meu coração; ele fará tudo o que for da minha vontade” (At 13.22, NVI). Mas Davi, esse “homem segundo o coração de Deus”, recebeu um não de Deus. Quando teve a intenção de fazer um templo para o Senhor, recebeu a falsa mensagem positiva de que Deus era com ele. Na mesma noite, Deus manda o profeta dizer a Davi que ele não vai construir templo algum (2 Sm 7.1-17). Davi recebeu um não de Deus, mesmo que as suas intenções fossem as melhores. Mas Davi estava preparado para isso, tanto que o vemos louvar, na segunda parte do capítulo 7. Davi não era adepto da confissão positiva.
É verdade que nós somos filhos de Deus, que Ele nos ama, mais ainda é verdade também que Deus não é nosso empregado. O nome de Deus (Javé ou Jeová) é substituído desde a Septuaginta por SENHOR, que é seu título mais significativo. Deus é Senhor, e é Soberano. Nós é que somos os servos, os súditos.
Nem sempre temos disposição pra entender que a vontade de Deus, ainda que doa, ainda que nos machuque, é boa, perfeita e agradável. Porque nós nos concentramos nos momentos que vivemos, que ainda que sejam doloridos, são passageiros. Mas Deus conhece o futuro e deseja ele mesmo nos dar um futuro (Jr 29.11 – NVI). Deus não se preocupa com os momentos. Deus se concentra na eternidade.