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Era uma vez (puxa, como eu gosto desses começos clássicos) uma pequena cidadezinha invisível no meio do nada. Ali moravam várias pessoas, todas invisíveis, que gostavam de comer tortas de vento sem recheio.

Um dia, um homem azul veio até a cidade numa estranha bicicleta verde, com dois baldes de tinta – um amarelo e um vermelho – e todos ficaram espantado com o quanto ele era estranho. Afinal, todos na cidade jamais tinham visto ninguém azul – na verdade, não tinham visto ninguém de nenhuma cor.

Na mesma hora, tentaram dar um sumiço nele. Amarraram suas mãos azuis com belas cordas transparentes e também seus pés. O mataram ali mesmo, na colina do Nada, bem no centro do vazio. Nunca mais se ouviu falar do homem azul. Seu sangue turqueza escorreu pelo chão sem cor.

Mas os seres invisíveis não sabiam o que fazer com a bicicleta verde.
Reuniram o conselho e tentaram chegar a um acordo. Nada parecia fazer sentido, e ninguém entendeu muito bem o que cada um estava tentando fazer.

Por fim, decidiram pendurá-la no alto da colina, acima da cidade. Não tiraram os baldes, com medo do que aconteceria.
Um dia, quando começou a chover, todos correram para dentro de casa. Os baldes de tinta transbordaram com a água, e começaram a ser derramados sobre a colina, tal como o sangue do homem no dia em que morreu.

Espantados, todos saíram de suas casas e ficaram olhando o que acontecera. A tinta começou a tocar em todas as pessoas, pintando-as em tons de vermelho e amarelo. Então, de repente, todos puderam se ver.

Finalmente, pais e filhos viram a si mesmos e aos outros, maridos viram pela primeira vez o rosto de suas mulheres. O legado do homem azul tinha permanecido.

E todos viveram coloridos para sempre.

Sempre tememos o que é diferente. Matamos o que não concordamos. Nos adaptamos com os que são parecidos conosco, e deixamos que os homens azuis – visto serem muito diferentes de nós – morram na colina vazia.

Só vivemos uma vez. Nessa vida, podemos ser passageiros, mas nossas ações têm ecos eternos. O que você faz dura a eternidade. Suas ações definem o que você é pras pessoas. O homem azul morreu, mas depois da sua morte, mostrou às pessoas invisíveis como era bom ser diferente. Como era belo o mundo colorido. Atrevo-me a dizer que aquelas pessoas jamais foram as mesmas e a cidade invisível foi pintada com tonalidades de vermelho e amarelo, mas havia uma mancha azul no chão da colina que sempre os fazia lembrar do erro que cometeram.

O homem azul morreu, mas inspirou as pessoas a mudarem. Como essa história tem molde de historinha infantil, lá vai a moral da história:

“Você pode matar um homem, mas seu legado jamais pode ser destruído”.